Malaika
Malaika
2025 ‧ Ficção/Drama
Sinopse
Um dia na vida de Malaika, uma adolescente albina, no interior do Nordeste. A luz do sol é uma ameaça, como também é sua rotina ao lado da mãe, Isabel, uma mulher negra que trabalha para uma família burguesa. Enquanto Malaika busca sua identidade no mundo, um lobo ronda seus caminhos.
Trailer
Malaika e sua rara sutileza poética, por Cédric Lepine
A estreia mundial do filme MALAIKA de André Morais no festival Biarritz América Latina foi a oportunidade de descobrirmos uma obra cinematográfica com um poder evocativo vertiginoso, através da abordagem artística e fotográfica de reflexão sobre a discriminação de pessoas com albinismo e a forma de conto atemporal com múltiplas interpretações que se situam nos interstícios da História.
Embora brasileiro, o filme se situa deliberadamente num espaço fora da habitual temporalidade do realismo social do país.
Assim, a narrativa é constantemente colocada em múltiplas hipóteses cuja resolução como tal nunca importa, seja o gênero do personagem principal ou a identidade das relações que ele compartilha com as pessoas que impõem um espaço concentrado de opressão, do professor à dona da casa.
Quanto à possibilidade de transformação em um mundo semi-fantástico, onde um lobo, inicialmente apresentado como um dos heróis de Chapeuzinho Vermelho, acaba se tornando mais um animal protetor e um poderoso espírito da floresta, ele fica suspenso ali, novamente, com toda a liberdade deixada ao público para criar seus vínculos causais.
A demanda de um cenário atemporal, onde a modernidade tecnológica não esteja presente e onde o professor demonstre uma pedagogia arcaica, misógina e discriminatória, parece evocar uma época passada da história brasileira cujo legado ainda hoje é sentido na realidade de uma sociedade fraturada.
A deliciosa trama convoca, a partir do olhar subjetivo de uma criança chamada Malaika, em homenagem a uma figura angelical protetora transmitida pelo próprio pai, os múltiplos fantasmas de uma história de opressão que atravessa os tempos e onde a casa dos senhores sufoca com sua energia liberticida.
Na produção de André Morais, que dá grande importância à expressão dos sentidos como apreensão hipersensível do mundo ao redor, Malaika é um conto fantástico com o poder evocativo de uma força singular, conseguindo convocar mitologias locais com uma rara sutileza poética.
Cédric Lepine
Crítico de cinema e ensaísta francês, especialista em cinema latino-americano. formado em História pela Universidade de Reims, em Arqueologia pela Paris I Panthéon Sorbonne e em Antropologia pela Paris VII Denis Diderot. Escreve para as revistas Mediapart e Les Fiches du Cinéma. Colaborador dos festivais Cinélatino de Toulouse e Viva México em Paris.