Letras

Cada manhã que nasce

me nasce

uma rosa na face

Leminski

 

1. ÂMAGO

(Marco Antônio Guimarães/ André Morais)

Flor se abriu  em pleno inverno

Nasceu, feriu desafiou suave o tempo

Eis a vez, mais uma vez

De se olhar e ver ao longe

No horizonte, além do monte

Mais adiante

Está o abismo do sonhador

Fui eu quem saltou

Ainda faz calor

Abraço a dor

Nu como estou

Eu faço o céu de cobertor

Olha a lua, olha o dia

Lhe deixei na escrivaninha

Um botão de flor vermelho

como a vida

Plantei mil flores no teu quintal

Mil flores ao mal

Mal de amar enfim

sonhar enfim, arder no fim

E a tarde cai em queda livre

Cai a fonte, se faz rio

Corre em terra, chega ao mar

E sobe em nuvem, chora em chuva

Molha o rosto

De alguém que olha na multidão

Infernos no céu

O dia vai nascer

Me espera

Quando menos se espera

Uma flor vai se abrir

Revelando o segredo de ser

Sou eu o beija-flor primeiro

extraindo no sumo do amor

A canção que se fez

A flor traz no âmago a dor

Eram três da manhã

No relógio da esquina

Que há tempos parou

Violão e Arranjo: Nonato Luiz

Violonecelo e Arranjo: Dimos Goudaroulis

Citação de versos de Paulo Leminski.

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2. LUA-ME

(Carlos Lyra/ André Morais)

Morder o fruto do absurdo

Que no sumo traz

A vida num segredo

Sinta o paladar

Saliva o mar

Eu me vento, me salino

Me seivo, me flor

Me verbo, me alvoreço

Me versejo à dor

Aurora-me

Passarinho-me

Morena-me de lume

Lua-me ao céu sereno

Eu intrasitivo amor

Insaciável ser

Passeio, peregrino

Por terra e tez

Língua-me o sol

Eu me vinho, me sangrio

Seio-me na voz

Na terra seca

Úmida de teus lençóis

Chuva-me em paz pelo mundo

Piano e Arranjo: André Mehmari

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3. PEQUENAS EPIFANIAS

(Ceumar/ André Morais)

*participação de Ceumar

(voz e kalimba)

Será que doce um dia foi o mar?

Um peixe virou sabiá?

E então vivia Deus na lua?

Ou se perdeu na noite escura?

Será que o sol é feito fruta?

Que à tarde cai de tão madura?

Me diz o vento o que procura?

Passou com pressa ainda pouco?

Nascemos de um pequeno sopro?

Ou é um imenso ventre o mundo?

Esconde a pele um mar profundo?

O amor é rota de navegador?

Fisgou a dor o pescador?

Costura a flor botões caídos?

Bate no sol um coração frio?

Jogou-se a paz de um precipício?

O verbo espera o seu princípio?

Quantas estrelas há no céu da boca?

Palavra voa ou povoa?

Com quantos ventos se perdoa?

Do seio escorre a via-láctea?

Os grilos fazem serenata?

Por que é tão pequeno o mar imenso?

Quantas cavernas abre o tempo?

Quantos outonos têm um dia?

É doce o mel da melancolia?

E chora a chuva sua alegria?

Ou se derrama em alforria?

Será que mata a bala de hortelã?

Será que a vida é uma poesia vã?

Será que a morte tem sabor maçã?

Ou negro é o seu vestido?

O fim é morte ou infinito?

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4. LEVE

(Milton Dornellas/ André Morais)

Leve lavra o amor

Em trigo, em verso, em dor

Em desumano afeto

Na pele em poro aberto

Meu coração

Lascivo e lunário

Se lança num salto

Ao doce presságio

Lábios vertem Deus

Alma secretamente nua

Suma flor

Paira vertiginosamente

Em seu pudor

Flor em carne viva

Em carnaval

Ferida aberta que a poesia

Nutre a dor

Um céu em furta-cor

A vida em seu supor

Meu verso corre ileso

À espera do primeiro

Sopro de amor

Assim bem de leve

No ouvido que pede

Um suspiro que entregue

O que tu és, o que sou

Te vejo melhor na escuridão

Nenhuma luz me basta

Meu amor é um prisma

Que o violeta ultrapassa

Emily Dickinson

Violão e Arranjo: Nonato Luiz

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5. DO AMOR

(Giana Viscardi/ André Morais)

Faz amor comigo

você que ouve essa canção

faz amor comigo

do lume a escuridão

Faz amor comigo

Barro, pele, mansidão

Faz amor comigo

me ativando a solidão

Use a dor e o coração por dimensão

 no meu peito, bem no centro

há um grão de perversão

Faz amor comigo

com duas gotas de limão

Faz amor comigo

mulher, homem, bicho, cão

Passe a língua em cada

ponto de ilusão

o teu ar encontra o meu

numa explícita canção

Alaúde renascentista, guitarra barroca,

 teorba e arranjo: Guilherme de Camargo

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6. CANÇÃO MERETRIZ

(Ná Ozzetti/ André Morais)

*participação de Ná Ozzetti

Essa canção se dá a qualquer um

Ao nascer do sol mais comum

Ao serenar de um ser em dia bom

Essa canção é onda leve

silêncio que se atreve a ser canção

lábios que umedecem

em sal, suor e oração

Virgem Maria

Desvirgina-me com teu manto

Toda canção é uma mulher

lhe dando o seio

em notas de alimento e desejo

E essa canção é toda tua

Pura e pontiaguda

Virgem Maria

Desvirgina-me com teu manto

Faz a canção chegar aos ouvidos

À ponta dos mamilos

Faz a canção prostituta

Dulcíssima e nua

Que se entrega de graça

Ou por simples cantarolar de sua graça

Piano e Arranjo: André Mehmari

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7. AVE MARIA

(Bach/ Gonnoud)

na voz de Tetê Espíndola

com citação de trecho do texto teatral Bruta Flor

de André Morais

É da minha natureza amar

 é da minha natureza desvirginar

 a natureza das coisas

Foi ela que me fez homem

foi a natureza que me comeu

pela primeira vez.

O feminino sempre comeu o masculino

 desde que o mundo é mundo.

Eu era um menino,

deitado na areia escura e úmida

do quintal da minha casa, à tardinha,

quando fui engolido pela natureza…

delicadamente, ela me bebeu,

jorrou da minha fonte mais oculta

todo prazer de sentir o corpo da terra nua…

Abri os braços tão forte que

quase pensei envolver a terra toda

 num abraço e o meu corpo nu

deitado de bunda lisa para o céu

 tornara-se enfim o corpo de um homem,

 sem nenhum segredo…

No outro dia de manhã,

nasceu um pequeno olho d’água

no canto do muro da casa

 formando um riozinho doce…

me sinto o dono dessa fonte,

sei que ela é feita da água

 doce do meu primeiro gozo.

Concepção e arranjos vocais: Tetê Espíndola

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8. SEIO

(Chico César/ André Morais)

Beija o meu seio

E aflora o desejo

Num lampejo

de amor primeiro

A pele pede o toque

E o sangue corre

Escorre, percorre

Léguas como um rio

Lambe as minhas coxas

Lantejoulas no vestido

E um decote infinito

Os seios são terra à mostra

Deus é mulher como eu

As mãos que acolhem

As unhas que ferem

O silêncio que antecede

Eu fui mulher antes de ser lua

Eu fui antes de tudo tua

Sou tua nua noiva

Num imenso véu

Branco e encardido

Espero um filho

Meu leite é vinho branco

Águas de um leve pranto

Nasce-me um poema

Bêbado e amando

Eu fui mulher antes de ser lua

Eu fui antes de tudo tua

Arranjo: Quarteto Pererê
Alessandro Ferreira (violão de 7 cordas)

 Edson Tadeu (gaita)

 Francisco Andrade (viola brasileira de 10 cordas)

 Tchêlo Nunes (violino)

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 9. O CANTO DO CISNE NEGRO

(Heitor Villa-Lobos)

*participação de Mônica Salmaso

com citação de poema de C. Baudelaire.

Sobre o céu e o mar

Muito alem do sol e do horizonte

Para alem dos tetos estrelados

Meu espírito vai

Ágil, levado por volúpia

Vai em busca de um ar superior

Na sede de beber

Como um puro e divino licor

O claro fogo que enche

Os límpidos espaços

Quero abandonar todo peso

E lançar-me rumo ao céu da manhã

Em vôo plano sobre a vida

Para entender afinal

A linguagem da flor

E da matéria sem voz

Arranjo: André Morais

Violão e arranjo: Felippe Francis

Violoncelo: Andrêyna Dinoá

Arranjos vocais: Mônica Salmaso

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10. DE CORPO ABERTO

(Sueli Costa/ André Morais)

Está em mim aberto o caminho

como a terra se abre para o rio

como nas veias corre o sangue em fio

A noite se abre para o dia

O ventre se abre para a vida

À beira do mar imenso

braços se abrem ao vento

E meu corpo aberto

no instante de um verso

ergue os muros de um castelo

onde mora um ou dois segredos

que por descuido agora revelo

Piano e Arranjo: Sueli Costa

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11. DESPRIMAVERA

(Edu Krieger/ André Morais)

Ávido amor em paz se deu

Flama que o dia me acendeu

Atravessando os sonhos meus

Se entregando ao mundo ateu

Nasce fúria como o sol

Na violência de uma flor

A natureza se guardou

Num instante habita

Um mar em euforia

A chuva fina, a dor umedecida

Fonte em sobrevida

Que do amor nascia

Me correu no sangue e na poesia

Amanhã à meia noite volto a nascer.

Você também.

Que seja suave, perfumado o nosso parto

entre ervas na manjedoura.

Caio Fernando Abreu

Acordeon e arranjo: Toninho Ferragutti

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