Dilacerado

(Lucina / André Morais)

Ei, você, me ame agora 

sem nome, sem data, sem demora

sem que eu te diga que não há escapatória

me ame sem as vestes, sem as horas, sem obter o que te importa, sem conseguir abrir a porta

me ame agora sem passado, sem sapatos, sem nenhum vocabulário

me ame sem pele, sem lábios, sem o que me faz ser amado

me ame assim, dilacerado

e eu te amarei como um bicho, bebendo o mel do teu cio, teu suor correndo como um rio

arranco a pele, te protejo do frio, meu amor em carne viva

delicadamente vivo

Confissão

(Seu Pereira / André Morais)

Confesso no meu verso há um quê de perverso há um pássaro em meu sexo

um amor um voo cego um paraíso secreto almas irmãs, puro incesto

confesso num voo rasante na poeira dos instantes faz parte desse lance a solidão dissonante

2 gotas de adoçante a alma em flagrante sigo adiante olhos cor de sangue

tua boca ao meu alcance ó minha lira delirante

 

Chuvosa

(Michel Costa/ André Morais)

Meu coração bate sem medo

me sai pela boca foge da prisão do peito

vivo, amo ao avesso, ao ar rarefeito

ao descompasso que a terra abriga nessa hora

minh'alma na noite lá fora

se liquefaz em chuva à tua porta

fecho os olhos agora, sinto hoje amanhã outrora

toda saudade que me forma

a fria lâmina que me corta

Nua

(Chico César /  André Morais)

Leia meus lábios molhados de saliva e café meu coração tudo que quer é silenciar

aqui estou em silêncio, embora cante cá dentro a canção compasso lento do sublime ao veneno

na dança eu adentro adentro 

até chegar ao epicentro, entro, experimento, a vida que se apresenta

nua como as pausas de um poema

 Alarido

(Lucina / André Morais)

eu te traí, meu bem

no primeiro trem para o abismo, no primeiro roçar macio, num só verso ao pé do ouvido

eu te feri, meu bem

com a pele suavemente fria, com o tiro cego da poesia, num leve pulsar de melancolia

sem meias palavras te digo, te amo como respiro, como um silêncio em alarido e agora em delírio

te proponho entre versos e vícios, sigamos amantes e feridos

 Teu

(Michel Costa / André Morais)

quisera ter meu braço no teu entrelaçado

minha testa na tua, tua mão na minha nuca

dança comigo uma noite em claro

trocando os passos, num sobressalto

sou todo teu, declaro

pousa tua alma na minha

sem pausas, entrelinhas

já não há música a nos acompanhar

um beijo e o mundo cala

quisera ter meu braço no teu entrelaçado

minha testa na tua, tua mão na minha nuca

dança comigo uma noite em claro

aqui estou eu, despudorado

adormeci nos teus braços

 Deserto

(Seu Pereira / André Morais)

sou eu aquele cavalo negro a correr no deserto do amor desfeito

alma partida ao meio, medo em mil volteios

me agarro a teus cabelos, teu rosto, teus pelos, mãos, tornozelos, todas as partes do enredo

tudo me escorre pelo dedos

e o que me resta é água, corre doce, calma

eu e minha toada numa íntima jornada

 Fé

(Giana Viscardi / André Morais)

creio no amor

no suave esplendor de suas raízes

em tudo que amorosamente existe

creio em mim, em ti, nesse encontro, na poesia e seus assombros

creio na ternura, na dor aguda e sua cura, nas mais altas temperaturas, naquele olhos voltados à lua

meu coração disparado crê no acaso sagrado que nos bota lado a lado

e por crer eu canto, por cantar eu amo tanto

assim num relâmpago, num teatro sobrehumano, quero dizer apenas eu te amo

 Orgia

(Seu Pereira / André Morais)

Eu, você, um outro ser, talvez mais um, pode ser

deitados sobre o assoalho, ao revirar dos abraços, em cada corpo um cansaço

essa noite quero todos os afagos, abrir mares guardados, pousar os fados, abre abre teu braços

deixa um segredo rente ao chão, teu seio vibra em minha mão

uma barba roça na minha, uma mão se encaminha, um sorriso, uma covinha, um pé que aos outros se aninha

e a língua em cada curva que visita, suavemente exercita a linguagem poesia

seguimos então, num doce ritmo, de improviso, como um organismo vivo, não há traidor ou traído, há um arranho, um suspiro, um delicado suicídio,

há um dedo em meu umbigo, um morder em teu mamilo, um respirar aflito, uma voz em pedido

deixa, deixa romper a represa, fluir a correnteza, os corpos de suor se lavam, de saliva se relavam e no jorro ardente dessa hora, viola o céu a fina aurora, silenciosa

e eu, você, um outro ser, sem dúvida mais um, pode crer, nos cobrimos de pele, na carne viva que transparece o amor

 Delito

(Lucina / André Morais)

dentro de mim mora um bicho

uma serpente de puro veneno antigo

bebendo como suave vinho tinto

meu doce sangue vertido

numa guerra em sigilo

o poeta guarda no verso seu delito

meu amor guarda o mel

encarnado, infiel

uma flor no holocausto

um trago, um afago, o ardor de um Deus

   
     

Discografia

  • Dilacerado (2015)

     
  • Bruta Flor (2011)

     

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André Morais