Âmago

(Marco Antônio Guimarães / André Morais)

 

Flor se abriu em pleno inverno

nasceu, feriu, desafiou suave o tempo

eis a vez, mais uma vez de se olhar e ver ao longe

no horizonte, além do monte,mais adiante

está o abismo do sonhador, fui eu quem saltou

ainda faz calor, abraço a dor

nu como estou, eu faço o céu de cobertor

olha a lua, olha o dia

lhe deixei na escrivaninha

um botão de flor vermelho como a vida

plantei mil flores no teu quintal, mil flores ao mal

mal de amar, enfim, sonhar, enfim, arder no fim

e a tarde cai em queda livre

cai a fonte, se faz rio, corre em terra

chega ao mar e sobe em nuvem

chora em chuva

molha o rosto de alguém que olha na multidão infernos no céu

o dia vai nascer

me espera, quanto menos se espera, uma flor vai se abrir revelando o segredo de ser

sou eu, o beija flor primeiro, extraindo no sumo do amor a canção que se fez

a flor traz no âmago a dor, eram três da manhã no relógio da esquina que há tempos parou

Lua-me

(Carlos Lyra / André Morais)

 

Morder o fruto do absurdo que no sumo traz

a vida num segredo sinta o paladar, saliva o mar

eu me vento, me salino, me seivo, me flor

me verbo, me alvoreço, me versejo à dor

aurora-me, passarinho-me

morena-me de lume, lua-me ao céu sereno

eu, intransitivo amor, insaciável ser

passeio, peregrino por terras e tez

língua-me o sol

eu me vinho, me sangrio, seio-me voz

na terra seca, úmida de teus lençóis

chuva-me em paz pelo mundo

Pequenas Epifanias

(Ceumar / André Morais)

 

Será que doce um dia foi o mar?

um peixe virou sabiá?

e então vivia Deus na lua?

ou se perdeu na noite escura?

será que o sol é feito fruta? que a tarde cai de tão madura?

me diz o vento, o que procura? passou com pressa ainda pouco?

nascemos de um pequeno sopro? ou é um imenso ventre o mundo? 

esconde a pele um mar profundo?

o amor é rota de navegador?

fisgou a dor o pescador? costura a flor botões caídos? 

bate no sol um coração frio?

jogou-se a paz de um precipício? o verbo espera o seu princípio?

quantas estrelas há no céu da boca? palavra voa ou povoa?

com quantos ventos se perdoa? do seio escorre a via-láctea?

os grilos fazem serenata?

por que é tão pequeno o mar imenso? quantas cavernas abre o tempo?

quantos outonos têm um dia?

é doce o mel da melancolia?

e chora a chuva sua alegria? ou se derrama em alforria?

será que mata a bala de hortelã? será que a vida é uma poesia vã?

será que a morte tem sabor maçã? ou negro é o seu vestido?

o fim é morte ou infinito?

 Leve

(Milton Dornellas / André Morais)

 

leve lavra o amor

em trigo, em verso, em dor

em desumano afeto, na pele em poro aberto

meu coração lascivo e lunário

se lança num salto ao doce preságio

lábio vertem Deus

alma secretamente nua, suma flor

paira vertiginosamente em seu pudor

flor em carne viva, em carnaval

ferida aberta que a poesia nutre a dor

um céu em furta-cor

a vida em seu supor

meu verso corre ileso

à espera do primeiro sopro de amor

assim, bem de leve, no ouvido que pede

um suspiro que entregue

o que tu és, o que sou

 Do amor

(Giana Viscardi / André Morais)

 

faz amor comigo

você que ouve essa canção

faz amor comigo

do lume à escuridão

faz amor comigo

barro, pele, mansidão

faz amor comigo

me ativando a solidão

use a dor e coração por dimensão

no peito, bem no centro há um grão de perversão

faz amor comigo 

com 2 gotas de limão

faz amor comigo

mulher, homem, bicho, cão

passe a língua em cada ponto de ilusão

o teu ar encontra o meu numa explícita canção

 

 Canção Meretriz

(Ná Ozzetti / André Morais)

 

essa canção se dá a qualquer um

ao nascer do sol mais comum

ao serenar de um ser em dia bom

essa canção é onda leve

silêncio que se atreve a ser canção

lábios que umedecem em sal, suor e oração

Virgem Maria, desvirgina-me com teu manto

toda canção é uma mulher

lhe dando o seio em notas de alimento e desejo

e essa canção é toda tua, pura e pontiaguda

Virgem Maria, desvirgina-me com teu manto

faz a canção chegar aos ouvidos

à ponta dos mamilos

faz a canção prostituta

dulcíssima e nua

que se entrega de graça

ou por simples cantarolar de sua graça

 Ave Maria (Bach/Gonnoud)

*com trecho do espetáculo teatral Bruta Flor

(André Morais)

 

é da minha natureza amar

é da minha natureza desvirginar a natureza das coisas

foi ela que me fez homem,

foi a natureza que me comeu pela primeira vez,

o feminino sempre comeu o masculino, desde que o mundo é mundo

eu era um menino, deitado na areia escura e úmida

do quintal da minha casa, à tardinha

quando fui engolido pela natureza

delicadamente ela me bebeu

jorrou da minha fonte mais oculta

todo prazer de sentir o corpo da terra nua,

abri os braços tão forte que quase pensei envolver

a terra toda num abraço e o meu corpo nu

deitado de bunda lisa para o céu

tornara-se enfim o corpo de um homem

sem nenhum segredo

no outro dia, de manhã, nasceu um pequeno olho d'água,

no canto do muro da casa, formando um riozinho doce

me sinto o dono dessa fonte, sei que ela é feita da água doce do meu primeiro gozo

 

 Seio

(Chico César / André Morais)

 

beija o meu seio

e aflora o desejo

num lampejo de amor primeiro

a pele pede o toque e o sangue corre, escorre, percorre léguas como um rio

lambe minha coxas, lantejoulas num vestido e um decote infinito

os seios são terra à mostra

Deus é mulher como eu

as mãos que acolhem, as unhas que ferem

o silêncio que antecede

eu fui mulher antes de ser lua

eu fui antes de tudo tua

sou tua nua noiva num imenso véu

branco, encardido, espero um filho

meu leite é vinho branco

águas de um leve pranto

nasce-me um poema

bêbado e amando

 O canto do cisne negro

(H. Villa -Lobos)

*com citação de poema de Baudelaire

 

sobre o céu e o mar

muita além do sol e do horizonte

para além dos tetos estrelados

meu espírito vai, ágil, levado por volúpia

vai em busca de um ar superior

na sede de beber como um puro e divino licor

o claro fogo que enche os límpidos espaços

quero abandonar todo peso e lançar-me rumo ao céu da manhã

em voo plano sobre a vida

para entender afinal a linguagem da flor e da matéria sem voz

 De corpo aberto

(Sueli Costa / André Morais)

 

está em mim aberto o caminho

como a terra se abre para o rio

como nas veias corre o sangue em fio

a noite se abre para o dia

o ventre se abre para a vida

à beira do mar imenso

braços se abre ao vento

e meu corpo aberto num instante de um verso

ergue os muros de um castelo

onde mora um ou dois segredos

que por descuido agora revelo 

 Desprimavera

(Edu Krieger / André Morais )

 

ávido amor em paz se deu

flama que um dia me ascendeu

atravessando os sonhos meus

se entregando ao mundo ateu

nasce fúria como o sol

na violência de uma flor

a natureza se guardou

num instante habita

um mar em euforia, a chuva fina, a dor umedecida

fonte em sobrevida que do amor nascia

me correu, no sangue e na poesia

 

 

 

 

Discografia

  • Dilacerado (2015)

     
  • Bruta Flor (2011)

     

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