Críticas
Bruta Flor, novo espetáculo do Grupo Lavoura mistura
teatro, poesia e música no Santa Roza
por Henrique França
Música, poesia e chão. Um quintal de descobertas infantis, testemunha do arfar desejoso de um adulto. O menino e o velho em um mesmo artista – homem e mulher no mesmo corpo. O palco coberto de pétalas brancas, avermelhadas pelo calor da viola que ressoa solitária e a boca escarlate que canta, domina a palavra e provoca o silêncio enquanto oferece Leminski, Emily Dickinson, Baudelaire e Caio Fernando Abreu à platéia, cúmplice e confidente. Assim é Bruta Flor, novo espetáculo do Grupo Lavoura, que estréia hoje, às 10h, no Teatro Santa Roza, em João Pessoa.
Se parece complexo descrever o espetáculo escrito e protagonizado pelo ator André Morais – que conquistou platéias Brasil afora com “Diário de um louco” -, assisti-lo é, acima de tudo, um amplexo coletivo entre teatro e música, artista e platéia, luz e som. Um abraço apertado pelas palavras e afagado pelas canções. Bruta Flor é mais que um monólogo. Trata-se de um musical poetizado – ou seria poesia musicada? Assistir, aliás, está aquém do que se vê ao sentar-se frente a frente com o ator, cara limpa, olhos nos olhos com o público também sobre o palco, toque, provocações, a dúvida do limiar entre a fala memorizada do ator e o convite improvisado do homem que brinca sobre pétalas brancas. “Me conta um segredo?” – e quem não conta?
Do menino que masca a eternidade em um chiclete dado pelo irmão mais velho ao velho deitado a aparentemente sem vida, da descoberta do sexo com a natureza ao olhar-se feto na mãe que ainda sequer sabe que o espera, o personagem se revela a cada um, se despe em palavras, se veste de musicalidade. “Eu era um menino deitado na areia úmida do quintal da minha casa, à tardinha, quando fui engolido pela natureza. Delicadamente ela me bebeu, jorrou da minha fonte mais oculta todo prazer de sentir o corpo da terra nua. Abri meus braços tão forte que quase pensei envolver a terra toda num abraço”. Eis um trecho desse poema encenado.
Bruta Flor se passa em apenas um dia e conta a viagem de alguém que descobre a si mesmo. Mas o tempo desse espetáculo transcende o palco, o cênico, e segue o público por outros quintais, outras revelações, segredos e canções. Aliás, o transbordar poético da nova montagem do Grupo Lavoura é tão intenso que resultou, também, em um CD com onze canções inéditas e intensas, todas entoadas ao longo do espetáculo teatral. Não à toa dividem o palco com André Morais os músicos Renata Simões (viola), Michel Costa (violão) e Osmídio Neto (acordeon), também confidentes desse personagem sem nome, sem pudor, sem rancores ou dores sobre as quais ele não fale – em versos, prosa ou canções.
A semelhança onírica com Alice e seu país das maravilhas existe, mas Bruta Flor vai além. A observação composta por Lewis Carroll, de uma menina que é apenas vista pelo leitor/espectador, é sobreposta no espetáculo de logo mais quando as mãos do artista tocam o observador, seus ouvidos escutam a platéia em cochichos, fita os olhos tensos do público e confunde realidade e cena. Devo acenar? Respondo a pergunta? Sigo para o centro do palco? E cada um segue participando desse jogo entre os extremos – sim ou não, real ou imaginário, dentro ou fora do palco, falo ou me calo, acabou ou apenas silenciou? Para saber as respostas, é preciso estar lá, diante do quintal de pétalas brancas, degustando poemas, ouvindo canções e inalando o cheiro raro da Bruta Flor.
Bruta Flor e o Grupo Lavoura
Foram pelo menos dois anos de preparação, contatos com artistas do Brasil inteiro, mudanças, ensaios, sonhos. O espetáculo Bruta Flor foi composto por várias mãos e mentes. Escrito e co-dirigido por André Morais, a montagem tem direção de Jorge Bweres, que também co-dirigiu com André o premiado “Diário de um louco”. Eli-Eri Moura e Marcílio Onofre, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), assinam a música incidental do espetáculo, com canções executadas por Renata Simões (viola), Michel Costa (violão) e Osmídio Neto (Acordeon). Além da preparação vocal de Maria Juliana Linhares e preparação corporal de Ângela Navarro, a montagem conta com desenho e operação de luz de Jorge Bweres e técnica de som por Tina Medeiros. A produção é de Lúmina Projetos Culturais.
A semente do Lavoura foi plantada em 2004, durante um festival de teatro universitário. Bweres e Morais, então com 18 anos. Naquele ano, a ousadia do jovem ator fez com que a pequena trupe decidisse pela montagem marcante de “Diário de um louco”, baseado em texto de Nicolai Gogol. O espetáculo, aliás, não apenas conquistou prêmios teatrais importantes no cenário nacional – Melhor Espetáculo, Melhor Música, Melhor Ator no Festival de Guaramiranga (CE) – como saiu em turnê Brasil afora depois de selecionado pelo concorrido Projeto Palco Giratório, do Sesc. Hoje o grupo volta aos palcos com novo desafio: conquistar crítica e público com o musical poetizado Bruta Flor.
Bruta Flor, o disco
Com onze faixas, nove parcerias inéditas e participações de artistas como Ceumar, Ná Ozetti, Tetê Espindola e Mônica Salmaso nas gravações, o CD solo de André Morais, que leva o mesmo nome do espetáculo teatral, está muito além de uma simples trilha sonora. Suas canções trazem os elementos das boas canções: poesia, sinceridade, um pouco de melancolia, uma pitada de ironia, acordes de alegria e sons de entrega. Com projeto gráfico do próprio Morais, capa composta pela obra ‘A Santa’, de Dyógenes Chaves, e fotos de Roberta Alves e Jorge Bweres, o disco também é mais que canções. É objeto de apalpar, folhear o encarte, ler trechos de poemas impressos em suas páginas, ouvir e cantar.
Para chegar a um dos poucos discos com tantas participações e parcerias que se tem notícia, no Brasil, André Morais peregrinou em apresentações de cantores, gastou horas insistindo audiência por e-mail, repetindo ligações e ousando colocar letras suas para serem musicadas por ninguém menos que Carlos Lyra, Chico César, Edu Krieger, Ceumar, Marco Guimarães, Ná Ozetti, Sueli Costa, Giana Viscardi e Milton Dornellas. Gente que faz da música a vida e deu vida à poesia letrada do ator – e agora compositor – paraibano. Bruta Flor, o disco, vale cada canção.
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Flor brota em jardim adubado
André Morais evolui e domina monólogo em nova montagem
Por Tiago Germano
Na literatura, segundo Córtazr, o romance ganha briga com o leitor por pontos, enquanto o conto, por sua brevidade, tem que ganhar por nocaute. É mais ou menos a situação do monólogo no teatro. Ele tem que ganhar por nocaute e ainda ‘trapacear’ sem que o público, o verdadeiro juiz, dê por conta disso.
Com Bruta Flor, em cartaz em sua última semana no Teatro Santa Roza, o Grupo Lavoura consegue esta façanha: não só nocauteia como trapaceia um bocado.
A começar pela inserção da música, composta por André Morais em parcerias de quilate estampadas no CD que, paralelamente à montagem, o ator produziu movendo mundos e fundos para chegar a nomes como como Mônica Salmaso ou Carlos Lyra. No contexto dramatúrgico, é atrilha que vai costurando as situações vivenciadas pelo protagonista, um viajante no tempo e espaço que vive o eterno retorno de suas experiências pessoais.
O ator está afinado e não deixa de ‘interpretar’ as letras, trazendo-as do plano simbólico para a ação. Apesar de bem cuidado, o cenário não chega a ter o potencial que, por exemplo, tinha em Diário de um Louco, também um monólogo, também sob a direção de Jorge Bweres. Tudo indica, então, um aprofundamento desta linha de pesquisa, na qual André Morais tem mostrado pleno domínio.
Isso se dá sobretudo quando acha soluções figurativas em seu próprio corpo: como a metáfora da flor bruta, que ele foge aos clichês ao desenhá-la em posturas e movimentos, em uma das primeiras cenas da peça.
O jogo proposto com a platéia também é eficiente, e a montagem é coroada pela iluminação perfeccionista de Bweres, que consegue efeitos significativos diante do preto e branco.

